Mente corrupta: quais os mecanismos cerebrais relacionados ao comportamento imoral?

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“A corrupção pode ser decorrente de um tipo de psicopatia. Quem a comete apresenta geralmente um insensível desprezo pelos direitos dos outros e uma propensão a comportamentos predatórios e até mesmo violentos”, garante o neurologista norte-americano Antoine Bechara.

A ciência investiga que os comportamentos imorais são tipos de psicopatia e podem ocorrer por influência de dois fatores distintos, a disfunção anatomo-funcional do cérebro e o ambiente resistente a punição. Durante a 14ª edição do World Congress on Brain, Behavior and Emotions, de 14 a 17 de junho, em Porto Alegre, o neurologista e psicólogo Antoine Bechara, professor da University of Southern California, do Brain and Creativity Institute e da University of Iowa Hospitals and Clinics aprofundará os conceitos que interligam os mecanismos neuronais e a prática de corrupção.

O comprometimento funcional do córtex pré-frontal ventromedial decorre de desordens genéticas ou de trauma e estresse no início da vida. Esses fatores precoces desregulam sistemas neuronais que alertam para as consequências das más escolhas.

Por sua vez, a atitude antiética pode acontecer sem necessariamente existir uma disfunção cerebral subjacente. Na chamada “psicologia de jardim”, o indivíduo assimila no ambiente onde vive que agir incorretamente traz benefícios a si próprio. Na maioria dos casos, o ato é reforçado pela falta de punição. O sujeito mata, estupra e rouba, mas não é preso ou no máximo recebe uma pena mais branda. O político é contumaz em desviar dinheiro público, no entanto é protegido por foro privilegiado, seus comparsas não o condenam e a população por negligência ainda acaba por reelegê-lo.

Dr. Bechara explica as diferenças entre os tipos de psicopatia: “Aqueles com disfunção cerebral nunca aprenderão com seus erros. Caso sejam pegos e punidos por seu comportamento antissocial, voltarão a cometê-los sempre e de novo, já que são insensíveis à punição”.

Já as pessoas com psicopatia adquirida no meio em que vivem têm cérebros normais. Nesses casos, se seus crimes e suas ações corruptas receberem punição, elas poderão se ajustar quando as contingências sociais e de aprendizagem forem alteradas.

Transportando os dois conceitos para a realidade política e social brasileira, na qual a corrupção está enraizada na relação entre as esferas pública e privada, como vêm evidenciando as megaoperações policiais, a hipótese possível é que o meio produz o comportamento ilegal que assola o país.

“Quando me perguntam sobre comportamento corrupto em larga escala, sou propenso a pensar que boa parte é produto de aprendizagem, de uma cultura que reforça a corrupção, inclusive por falta de punição, diferentemente dos casos que resultam de uma função cerebral prejudicada”, avalia Dr. Bechara.

Segundo ele, os psicopatas seduzem, manipulam, mentem e exploram outros para obter vantagem própria, sem qualquer remorso. Contudo, o que intriga a ciência são os psicopatas “bem-sucedidos”, também chamados de “funcionais”. Esses estão integrados à sociedade e tornam-se grandes empresários, CEOs, líderes, políticos de alto comando. Podem, inclusive, nunca serem pegos, condenados e presos.

“A corrupção e o comportamento corrupto fazem parte dessa forma bem-sucedida ou funcional da psicopatia”, argumenta o especialista.

PARTIDARISMO POLÍTICO E AUTOENGANO – As decisões políticas dos indivíduos e, principalmente, suas reações emocionais e viscerais podem ser movidas pelo autoengano.

De acordo com o médico e professor de psicologia Vitor Geraldi Haase, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o autoengano é uma característica de personalidade calcada em padrões distintos de organização anatomo-funcional do cérebro, que fazem com que as pessoas optem por determinadas posições políticas, em função de motivos morais emocionalmente carregados.

“O autoengano é um mecanismo social-adaptativo, característico também dos psicopatas, e que evolui para a trapaça. Engana melhor aos outros quem a si próprio ilude, o famoso falso moralismo. Essas pessoas se julgam sempre boas, a culpa é sempre dos outros. Depois de fazer suas opções político-morais, essas pessoas tendem a virar fanáticas”, explica Dr. Haase.

Segundo o especialista, algumas pessoas são mais susceptíveis ao autoengano por lesões pré-frontais ventromediais e também por influência de síndromes neuropsicológicas nos mecanismos cerebrais que monitoram nossa representação das realidades interna e externa. “O autoengano torna o sujeito susceptível ao conto do vigário. O populismo é uma vigarice que pega as pessoas mais necessitadas, vendendo-lhes a ilusão de que podem conseguir coisas na vida sem esforço”, observa.

ENTREVISTA – DR. ANTOINE BECHARA – ESTADOS UNIDOS

1- O Brasil vive uma crise ética resultante da corrupção enraizada na relação entre os interesses público e privado. Como explicar a relação mecanismos neuronais e atos corruptos e imorais?

Eu falo sobre a corrupção como um tipo de psicopatia e comportamento antissocial. De acordo com Hare (1993), a condição geralmente envolve “… um desprezo insensível pelos direitos dos outros e uma propensão para comportamentos predatórios e violentos. Sem remorso, os psicopatas amam e exploram outros para seu próprio ganho. Eles carecem de empatia e senso de responsabilidade, manipulam, mentem e enganam os outros, sem qualquer respeito pelos sentimentos de ninguém”. Quando falamos de psicopatas, muitas vezes falamos sobre o psicopata “malsucedido”, aquele que acaba na prisão e enfrenta problemas com a lei. Os intrigantes são os psicopatas “bem-sucedidos” ou “funcionais”. Eles parecem funcionar bem na sociedade e muitas vezes podem ser bem-sucedidos. Eu argumento que a corrupção e o comportamento corrupto fazem parte dessa forma bem-sucedida / funcional de psicopatia. Muitas pessoas sustentam a ideia de que os psicopatas são essencialmente assassinos ou condenados. Eu argumento que os psicopatas (especialmente o tipo funcional) podem ser empresários, políticos, CEOs e outros indivíduos bem-sucedidos que talvez nunca vejam o interior de uma prisão nem cometam crimes violentos. No entanto, muitas vezes cometem violações de outro tipo: exploram as pessoas, deixando-as esgotadas e num estado piorado para o encontro. Eles provam ser empregados traiçoeiros, homens de negócios coniventes ou funcionários imorais que usam sua posição para vitimar as pessoas e se enriquecer.

Tendo descrito as características dos comportamentos corruptos, passo a explicar os mecanismos cerebrais subjacentes do problema. As pessoas normais não se envolvem em comportamentos corruptos porque unem o valor moral da sociedade e o risco de punição quando violam as regras sociais (como aceitar o suborno). No entanto, existem duas possibilidades pelas quais as pessoas se envolvem em comportamentos corruptos:

* Diminuição da função do córtex pré-frontal orbito-frontal ventromedial. Essa disfunção cerebral pode ser proveniente de fatores genéticos ou ambientais iniciais (como trauma de vida precoce e estresse), o que pode levar a uma disfunção anormal do córtex pré-frontal.

* O comportamento corrupto também pode ocorrer sem um problema cerebral subjacente, devido ao ambiente de aprendizagem defeituoso (ou seja, aprender que o comportamento corrupto é bom).

Eu argumento que uma diferença fundamental entre os dois poderia ser revelada. Aqueles com disfunção cerebral nunca aprenderão com erros repetidos. Há uma anormalidade cerebral subjacente. Se eles foram punidos por seu comportamento, eles continuarão fazendo isso uma e outra vez. Se avaliássemos suas funções cerebrais, esperamos encontrar resultados consistentes de prejuízo na função do córtex pré-frontal orbito-frontal ventromedial.

Aqueles com comportamento corrupto “aprendido” devem ter cérebros normais. Se avaliássemos suas funções cerebrais, devemos encontrar resultados consistentes da normalidade funcional do córtex pré-frontal orbito-frontal ventromedial. Seu comportamento corrupto desviado continua apenas porque fica impune e traz recompensa para si. No entanto, se seu comportamento for punido, eles se ajustarão quando as contingências sociais e de aprendizagem forem alteradas.

Portanto, quando você faz a pergunta sobre um comportamento corrompido de grande escala, estou inclinado então a pensar que a maior parte disso é fruto de um aprendizado defeituoso (ou uma cultura que reforça a corrupção), diferentemente do caso em que há uma função cerebral comprometida.

 

2 – Que pessoas são mais propensas a cometer corrupção?

Acho que a minha longa resposta acima me ajuda a dar-lhe informações mais concisas. Os suscetíveis são os que apresentam um desenvolvimento anormal do cérebro devido ao trauma da vida adiantada. Isso inclui situações em que as crianças são separadas de seus entes queridos ou são violadas por parentes, como estupro e abuso sexual, uso precoce de drogas etc. Todas essas situações de vida são conhecidas por causarem desenvolvimento anormal do córtex pré-frontal orbito-frontal ventromedial.

Também são suscetíveis aqueles que crescem em um ambiente onde aprendem que está correto ser corrupto. Observar o comportamento corrupto do outro ficar impune também pode promover o aprendizado de corrupção. O processo de aprendizagem defeituoso é apenas um ambiente ruim e não há necessariamente uma anormalidade cerebral associada a ele. Eu espero que eles mudem seu comportamento se forem punidos.

 

3 – A tendência significa necessariamente que a pessoa irá desenvolver o ato de corrupção?

Os indivíduos com uma anormalidade cerebral do desenvolvimento provavelmente desenvolverão não apenas um comportamento psicopático e corrupto, mas também são mais suscetíveis a desenvolver comportamentos viciantes e tomar decisões equivocadas que muitas vezes os levam a consequências negativas.

Indivíduos que se tornam corruptos como resultado de um ambiente ruim, eles apenas desenvolvem um ato de corrupção.

 

4 – Existem maneiras de evitar que esse comportamento ocorra?

Todas as razões pelas quais as pessoas desenvolvem disfunção no córtex pré-frontal orbito-frontal ventromedial não são tão claras, mas alguns dos exemplos de trauma da vida adulta podem ser uma causa. Se essas condições de vida fossem evitadas, essas anormalidades também poderiam ser evitadas. No entanto, se uma anormalidade cerebral se instala, então é provável que um comportamento psicopático (envolva corrupção ou não) acabe por ocorrer.

Por outro lado, as melhores maneiras de evitar os comportamentos corruptos resultantes do aprendizado defeituoso e mau ambiente são: (1) ensino de moralidade e honestidade às crianças pelos pais e escola; (2) eleição de líderes que são honestos (o que é muito difícil de encontrar!) e impõem regras justas e punição exemplar à corrupção.

 

5 – Existe uma explicação científica para a corrupção em massa no Brasil, semelhante a outros países?

Na verdade, não é uma explicação científica diferente do fato de que o comportamento corrupto se torna reforçado pela cultura e se torna uma maneira de sobreviver.

 

Serviço

14th World Congress on Brain, Behavior and Emotions

De 14 a 17 de junho de 2017

Porto Alegre, FIERGS

Programação científica http://www.brain2017.com/programacao/index.php#topo

Blog para a imprensa

https://brainwcbbe.wordpress.com/

Assessoria de imprensa

Ponto C Comunicação Estratégica

Carlos Alessandro Silva – carlos.relgov@gmail.com / 11 98293-4224

Andrea Guardabassi – andrea.guardabassi@gmail.com / 11 98989-0359

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